Quaresma: origem bíblica ou tradição humana? Entenda a história completa e atualize sua fé
A palavra-chave “quaresma” ainda desperta curiosidade, debates e até polêmicas dentro e fora da Igreja. Afinal, estamos falando de um período de 40 dias que movimenta calendários litúrgicos, pauta jejuns, altera cardápios e convida milhões de pessoas à reflexão.
Mas será que a prática é genuinamente bíblica ou apenas resultado de costumes acumulados pela tradição? Neste artigo profissional, você mergulhará em evidências históricas, textos sagrados e dados concretos para formar sua própria opinião.
Em pouco mais de 2.000 palavras, vamos contextualizar, comparar, responder às dúvidas mais frequentes e oferecer dicas práticas para uma experiência espiritual transformadora. Se você deseja entender a quaresma de forma definitiva, continue lendo: este conteúdo foi feito sob medida para você.
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Ver ProdutoO que é a Quaresma e por que ela ainda importa?
Definição litúrgica
A quaresma é o período de quarenta dias que precede a celebração da Páscoa no calendário cristão ocidental. Inicia-se na Quarta-feira de Cinzas e encerra-se na Missa da Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa.
A contagem de 40 dias, descontando-se os domingos, foi consolidada no século IV para oferecer um tempo de preparação espiritual por meio de jejum, oração e esmolas. Embora originária do âmbito católico, diversas Igrejas históricas – anglicanas, luteranas, metodistas e ortodoxas – preservam a observância, cada qual com nuances litúrgicas próprias.
Significado espiritual
Mais do que um simples calendário, a quaresma simboliza o êxodo interior: deixar para trás velhos hábitos e trilhar um caminho de conversão. Ela convida o cristão a reviver o deserto de Jesus, a encarar tentações e a redescobrir dependência de Deus.
Em sociedades cada vez mais aceleradas, a relevância permanece porque o ser humano ainda precisa de pausas estruturadas para o autoconhecimento. Pesquisas recentes do Pew Research Center mostram que 61 % dos cristãos praticantes nos EUA dizem aumentar a frequência de orações nesse período – demonstrando que a tradição continua viva e significativa.
Curiosidade Histórica: a palavra latina “quadragesima”, que deu origem a “quaresma”, significa literalmente “quadragésimo dia”. Nos primeiros séculos, o período variava entre 36 e 49 dias até a padronização em 40.
Raízes bíblicas: 40 dias ao longo da Escritura
Antigo Testamento – o número quarenta em destaque
Quando Moisés permaneceu 40 dias no Sinai (Êx 24.18) e Elias caminhou 40 dias até o Horebe (1 Rs 19.8), o número quarenta passou a simbolizar prova, purificação e transição. O dilúvio de Noé durou 40 dias de chuva, enfatizando o juízo seguido de renovação. Embora o termo quaresma não apareça no Antigo Testamento, a recorrência de quarenta como tempo de preparação oferece substrato simbólico sólido para a prática posterior.
Novo Testamento – Jesus no deserto
No evangelho de Mateus 4.1-11, Jesus jejua por 40 dias antes de iniciar seu ministério público, enfrentando tentações que sintetizam desejos humanos: pão (necessidades físicas), espetacularidade (fama) e poder (domínio).
Esta narrativa tornou-se o modelo paradigmático para a quaresma: um tempo de jejum, confrontação interior e reafirmação da confiança em Deus. Além disso, Atos 1.3 registra que Cristo ressuscitado permaneceu 40 dias instruindo os discípulos, fortalecendo o simbolismo da quarentena espiritual.
Alerta Teológico: reconhecer raízes bíblicas não significa que toda prática posterior seja automaticamente obrigatória. A discussão sobre normatividade permanecerá nos próximos tópicos.
Desenvolvimento histórico: dos primeiros cristãos ao século XXI
Primeiros séculos – das vigílias pascais à quarentena
No século II, cristãos de várias regiões já jejuavam em preparação para a Páscoa, mas por um a três dias.
Cartas de Irineu de Lyon († 202) registram controvérsias sobre a duração. Em 325 d.C., o Concílio de Niceia menciona uma preparação quarentenária para catecúmenos antes do batismo pascal, sugerindo que a prática já se espalhava.
Do ponto de vista social, a quaresma consolidou-se como catequese intensiva para novos convertidos, culminando na Vigília Pascal.
Idade Média e Reforma – ajustes e regulamentações
Até o século X, o jejum prescrevia uma única refeição diária após o pôr do sol; carnes e laticínios eram proibidos. Com o tempo, monges introduziram dispensas de peixe, favorecendo regiões costeiras.
Durante a Reforma Protestante do século XVI, líderes como Martinho Lutero e João Calvino não rejeitaram a quaresma, mas combateram a ideia de mérito salvífico. Eles encorajaram jejum voluntário, não coercitivo.
Já no Concílio de Trento (1545-63), a Igreja Católica reafirmou a disciplina, destacando seu caráter pedagógico, não salvífico.
Dica Rápida: mesmo quem não pertence a tradições litúrgicas formais pode usar os 40 dias para estabelecer metas de leitura bíblica, como ler os quatro Evangelhos inteiros. A prática reforça foco e cria um marco temporal claro.
Práticas, jejuns e simbolismos: muito além de “não comer carne”
Jejum – disciplina do corpo
Em linhas gerais, jejuar significa abdicar voluntariamente de alimentos ou prazeres legítimos para lembrar nossa dependência de Deus. A Igreja Romana hoje requer abstinência de carne apenas nas sextas-feiras quaresmais e jejum completo na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa.
Ortodoxos mantêm restrição a carne, laticínios e bebidas alcoólicas durante toda a quaresma. Comunidades evangélicas livres adaptam: alguns membros suspendem redes sociais ou entretenimento para ganhar tempo devocional.
Oração – escuta e resposta
Relatório do Barna Group (2020) indica que 37 % dos cristãos aumentam a prática de oração no período. Congregações adotam vigílias semanais ou campanhas de 40 dias, inspiradas no deserto de Jesus. O foco não é multiplicar palavras, mas recalibrar prioridades.
Caridade – jejum que gera partilha
Isaías 58 associa jejum autêntico à justiça social. Por isso, campanhas como a Fraternidade, da CNBB, arrecadam milhões para projetos comunitários a cada quaresma. Em 2022, foram R$ 48 milhões destinados a 600 iniciativas segundo relatório oficial.
| Período histórico | Ênfase espiritual | Práticas características |
|---|---|---|
| Séculos I-III | Preparação para o batismo | Jejum de 1-3 dias; instrução catequética |
| Concílio de Niceia (325) | Purificação da comunidade | Jejum de 40 dias; reconciliação de penitentes |
| Idade Média | Mérito e disciplina corporal | Única refeição diária; proibição de carne e laticínios |
| Reforma (séc. XVI) | Sola fide, liberdade | Jejum voluntário; ênfase na Palavra |
| Sec. XXI | Consciência social | Campanhas solidárias; jejum digital |
Controvérsias e críticas: tradição humana ou mandamento divino?
A principal objeção protestante a respeito da quaresma gira em torno de Marcos 7.8 – “Vocês negligenciam o mandamento de Deus e se apegam às tradições dos homens”. Porém, distinção entre tradição maléfica e tradição sadia é crucial. A própria canonização do Novo Testamento resultou de tradição apostólica confiável. Logo, a pergunta correta seria: a quaresma contradiz algum princípio bíblico? Os críticos apontam Colossenses 2.16 (“ninguém vos julgue por causa de comida”) enquanto os defensores citam 1 Coríntios 9.27 (“esmurro o meu corpo…”).
Dr. Rodrigo Franklin de Souza, historiador e teólogo: “A Quaresma não é dogma, mas um dispositivo pedagógico. Se ela se tornar termômetro de espiritualidade, cai no legalismo; se for usada como meio de formação, torna-se aliada da fé bíblica.”
- Argumento bíblico a favor: Jesus jejuou 40 dias; logo, o discípulo segue o Mestre.
- Argumento histórico: a prática é universal entre cristãos antigos, sinal de consenso patrístico.
- Argumento pastoral: criar janelas anuais facilita a disciplina espiritual coletiva.
- Crítica legalista: pode gerar culpa e vanglória se transformada em obrigação meritória.
- Crítica cultural: cardápios de peixe substituem carne bovina, anulando o espírito de sacrifício.
- Resposta prática: orientar foco em caridade atenua o risco de formalismo.
- Conclusão equilibrada: liberdade cristã permite aderir ou não, mas jamais julgar o irmão.
Como viver a Quaresma hoje: dicas práticas e exemplos reais
Independentemente da tradição denominacional, é possível transformar a quaresma em ciclo de crescimento. Igrejas no interior de Minas Gerais, por exemplo, promovem “Quarenta dias de Propósito” baseados no livro de Rick Warren, combinando estudo bíblico diário e projetos sociais. Em comunidades urbanas, grupos jovens adotam o “desafio sem streaming” às sextas-feiras, revertendo o tempo livre para voluntariado em restaurantes comunitários. Abaixo, sugestões aplicáveis:
- Estabeleça um plano de leitura: Salmos 1-40 ou Evangelho de Lucas.
- Contribua financeiramente com ONG local; defina percentual fixo do salário.
- Reduza uso de redes sociais a 30 minutos diários e converta o tempo poupado em oração.
- Pratique jejum intermitente uma vez por semana, sob orientação médica.
- Participe de retiro silencioso de 24 horas para renovar a escuta interior.
Testemunhos colhidos pelo canal Bíblia Viva mostram relatos de restauração emocional: um empresário de Goiânia reduziu o consumo de álcool durante a quaresma de 2023 e economizou R$ 1.800, doados para bolsas de estudo de crianças ribeirinhas.
Impacto cultural e social da Quaresma no Brasil e no mundo
No Brasil, a quaresma altera agendas culturais: blocos de carnaval tradicionalmente encerram atividades na Quarta-feira de Cinzas, e restaurantes ajustam cardápios privilegiando peixes. Segundo a Associação Brasileira de Supermercados, a venda de bacalhau aumenta 45 % em março. Internacionalmente, países de maioria ortodoxa (Grécia, Rússia) vivem a “Grande Quaresma”, período que influencia até indicadores econômicos: estudo da Universidade de Atenas (2019) revelou redução de 12 % no consumo de laticínios no varejo grego durante o período.
Também há impactos positivos na filantropia. O Lent Appeal da Igreja Anglicana arrecadou £ 9 milhões em 2021 para alívio de fome global. No ambiente digital, hashtags como #lentfast acumulam milhões de visualizações, indicando ressignificação contemporânea da prática.
FAQ – Perguntas frequentes sobre a Quaresma
1. A Bíblia manda observar a Quaresma?
Não há mandamento explícito, mas o exemplo de Jesus no deserto fornece base para um período de jejum e oração. Igrejas veem a observância como disciplina voluntária, não obrigação salvífica.
2. Por que os domingos não contam nos 40 dias?
Domingo é “dia do Senhor”, celebração da ressurreição. A tradição ocidental exclui-os para preservar o caráter festivo, mantendo ainda assim quarenta dias efetivos de penitência.
3. Evangélicos podem participar?
Sim. Diversas comunidades protestantes adotam “Campanhas de 40 dias” focadas em oração, estudo bíblico e serviço social, sem vínculo com méritos sacramentais.
4. Qual a diferença entre jejum e abstinência?
Jejum reduz quantidade de alimento; abstinência elimina certos tipos (carne, doces, café). Ambas visam autocontrole, mas podem ser combinadas.
5. Gestantes ou pessoas doentes precisam jejuar?
Não. A própria legislação canônica isenta menores, idosos e enfermos. A prioridade é a saúde; outras formas de penitência (caridade, oração) são recomendadas.
6. O que é a “Semana Santa” dentro da Quaresma?
É a fase final, começando no Domingo de Ramos e culminando no Tríduo Pascal (Quinta, Sexta e Sábado Santo). Nela, a liturgia recorda os últimos momentos de Cristo.
7. Pode-se celebrar aniversários ou casamentos nesse período?
Pode, mas algumas paróquias sugerem sobriedade, evitando festas luxuosas. Igrejas ortodoxas restringem casamentos litúrgicos, transferindo as cerimônias para depois da Páscoa.
8. Crianças devem participar do jejum?
Catequistas recomendam formas pedagógicas leves: reduzir doces, prática de partilha de brinquedos ou economizar mesada para doações.
Conclusão
A quaresma permanece relevante porque:
- Possui raízes simbólicas profundas nos “40 dias” bíblicos;
- Foi consolidada historicamente pelos primeiros concílios;
- Oferece disciplina espiritual de jejum, oração e caridade;
- Gera impactos culturais, sociais e filantrópicos mensuráveis;
- Continua a suscitar debates saudáveis sobre tradição e liberdade cristã.


